Por que algumas Bíblias avisam que Marcos 16:9-20 falta em manuscritos antigos?
Os dois manuscritos completos mais antigos de Marcos terminam no v. 8. A grande maioria dos outros tem os v. 9-20, e um escritor do séc. II já os cita. Todas as versões daqui trazem o trecho; muitas edições modernas o marcam com uma nota.
O que o original diz
O Evangelho de Marcos chegou até nós de mais de um jeito no fim do capítulo 16:
- terminando no v. 8, com as mulheres saindo do túmulo com medo, sem dizer nada a ninguém;
- com os v. 9-20, o "final longo": aparições de Jesus, o envio dos discípulos e a ascensão;
- com um "final curto" de uma ou duas frases depois do v. 8, às vezes seguido do final longo.
O texto grego usado aqui (o SBLGNT) traz o final curto junto do v. 8 e, depois dele, o final longo.
Por que as versões divergem
Neste caso, as versões daqui concordam: a TB 1917, a BPM, a WEB e a KJV trazem os v. 9-20 sem marca. A diferença aparece em edições com notas, e vem dos manuscritos:
- A favor de terminar no v. 8: os dois manuscritos completos mais antigos do Novo Testamento (o Sinaítico e o Vaticano, do séc. IV) terminam ali. No séc. IV, Eusébio e Jerônimo escreveram que as cópias mais cuidadas terminavam no v. 8. O estilo dos v. 9-20 também é diferente do resto de Marcos.
- A favor do final longo: ele está na grande maioria dos manuscritos gregos e das traduções antigas, e Irineu, por volta do ano 180, cita o v. 19 como palavras de Marcos. Para muitos, isso mostra que o trecho já era lido nas igrejas muito cedo.
Muitos estudiosos concluem que o final longo foi acrescentado no séc. II, reunindo relatos que também aparecem em Lucas, João e Atos. Outros defendem que ele faz parte do evangelho desde o começo.
O que isso muda (e o que não muda)
Muda o ponto em que o livro de Marcos termina: com o espanto das mulheres diante do túmulo vazio, ou com as aparições do Ressuscitado.
O que não muda: em todas as versões, o v. 6 já anuncia a ressurreição ("Ele ressuscitou; não está aqui"), e o que o final longo conta também aparece nos outros evangelhos e em Atos.
Fontes desta nota
- Livro: Bruce M. Metzger, A Textual Commentary on the Greek New Testament, 2ª ed. (1994), sobre Mc 16:9-20
- Livro: David Alan Black (org.), Perspectives on the Ending of Mark: 4 Views (2008)